Histórias de peregrinos · Caminho Português

De Tui a Santiago com a minha mãe: cinco dias que não vamos esquecer

Relato da equipa editorial

Os últimos cinco dias do Caminho Português, de Tui a Santiago, com a minha mãe de 68 anos, que nunca tinha dormido num albergue. Etapas curtas, muita conversa, bosques galegos, ostras em Arcade, chuva miudinha e uma chegada que ainda me faz chorar.

Inês Machado abril 2025 · 5 dias · 115 km

Dia 1 · 14 abril

Tui – Redondela: atravessar o Minho e começar

A minha mãe parou no meio da ponte internacional, olhou para o Minho e disse: 'Então é isto.' Sim, mãe, é isto.

A ideia foi dela. Aos sessenta e oito anos, viúva há dois, a minha mãe disse-me numa terça-feira, a lavar a loiça, que queria fazer o Caminho de Santiago antes que os joelhos deixassem de a acompanhar. Eu tinha trinta e nove, um trabalho que não me deixava dormir e nenhuma vontade de andar. Disse que sim porque não se diz que não à mãe.

Saímos de Valença ao nascer do sol, atravessámos a ponte internacional sobre o Minho a pé e ela parou no meio, com um pé em Portugal e outro em Espanha, a olhar para o rio. «Então é isto.» Carimbámos a credencial na catedral de Tui, que parece uma fortaleza, e comemos o primeiro pão com chouriço da viagem sentadas nas escadas.

O Porriño e o rio Louro

Depois de Tui, o Caminho passa por uma zona industrial feia, mas há um desvio pelo rio Louro, entre choupos e moinhos, que evita quase tudo. Sigam as setas amarelas pintadas à mão, não as oficiais. Em Mos, uma senhora deu-nos água e disse à minha mãe que ela tinha muita coragem. A minha mãe respondeu que coragem tinha o meu pai, que morreu sem se queixar, e continuámos.

Redondela chegou devagar, com os seus viadutos de ferro. A etapa é longa demais para o primeiro dia; se puderem, dividam-na em duas e durmam em O Porriño. Nós não sabíamos.

Distância
31,5 km
Disposição
Bem
Dormi em:
Albergue municipal de Redondela

Dia 2 · 15 abril

Redondela – Pontevedra: a ria e as vieiras

Em Arcade comemos ostras às onze da manhã. A minha mãe nunca tinha provado. Agora quer voltar só por isso.

Uma etapa bonita e tranquila, a primeira em que o corpo já sabia o que estava a fazer. A subida a partir de Redondela tem vistas para a ria de Vigo, com as bateas das mexilhoeiras a flutuar como pontos numa folha, e o bosque até Arcade cheira a eucalipto molhado.

Em Arcade, a capital das ostras, comemos uma dúzia às onze da manhã, num bar onde o dono as abria com uma faca e um sorriso. A minha mãe nunca tinha provado ostras. Fez uma cara, depois outra, e pediu mais seis. Agora diz que quer voltar à Galiza só por isso, e eu acredito.

A ponte de Sampaio

A ponte medieval de Sampaio, onde os galegos travaram os franceses em 1809, é o sítio para a foto. Depois, o bosque sobe e desce até Pontevedra, com uma calçada romana que ainda se vê em alguns troços. A minha mãe contou-me, nessa subida, que o meu pai lhe tinha prometido o Caminho para a reforma e nunca chegaram a ir. Não disse mais nada durante uma hora. Eu também não.

Pontevedra é perfeita para uma tarde livre: praças com nomes de frutas e legumes, a igreja da Peregrina em forma de vieira, e um jantar de polvo à feira sem pressas. Dormimos numa pensão com vista para uma praça onde tocava uma banda.

Distância
19,6 km
Disposição
Radiante
Dormi em:
Pensão no centro de Pontevedra

Dia 3 · 16 abril

Pontevedra – Caldas de Reis: bosques e águas quentes

Chegar a Caldas com chuva e meter os pés na fonte de água quente da rua principal. A minha mãe disse que foi o melhor momento do Caminho. Discordo, mas percebo.

Saída pela ponte do Burgo e caminho entre eucaliptos, vinhas e aldeias onde o galo canta a horas erradas. Chuva fina galega toda a manhã, dessa que não molha mas encharca. A minha mãe, que trazia um chapéu de chuva dobrável desde Portugal, foi a única pessoa seca em vinte quilómetros de Caminho, e tinha muito orgulho nisso.

Em Tibo parámos num bar onde um senhor tocava gaita galega para os peregrinos, e a minha mãe, que não dança desde o casamento da minha irmã, deu dois passos com ele. Tenho o vídeo. Não o vou publicar.

Caldas de Reis

Caldas de Reis é uma vila termal: há uma fonte de água quente ao ar livre, na rua principal, onde os peregrinos metem os pés depois da etapa. Chegámos encharcadas, descalçámo-nos e ficámos vinte minutos com os pés na água a ver a chuva cair. A minha mãe disse que foi o melhor momento do Caminho. Eu discordo, o melhor foi no último dia, mas percebo perfeitamente.

Levem sandálias e um pouco de tempo. E jantem no restaurante junto ao rio Umia, que faz um caldo galego que a minha mãe ainda tenta copiar.

Distância
21,1 km
Disposição
Bem
Dormi em:
Albergue em Caldas de Reis

Dia 4 · 17 abril

Caldas de Reis – Padrón: a etapa do silêncio

Na subida depois de Carracedo não falámos durante uma hora. Não fazia falta. Trinta anos de conversas cabem num silêncio assim.

Etapa suave pelos bosques do Valga, com a capela de Santa Mariña e a descida ao vale do Ulla. Foi o dia em que a minha mãe deixou de perguntar quantos quilómetros faltavam. Andava à frente, com o chapéu de chuva fechado a fazer de bastão, e cantava baixinho fados que eu não sabia que ela sabia.

Na subida depois de Carracedo não falámos durante uma hora. Não fazia falta. Percebi ali que trinta anos de conversas, as boas e as más, cabem num silêncio assim, e que era para isso que ela queria fazer o Caminho: para estarmos caladas juntas, sem casa para limpar, sem telefone, sem ninguém a chamar.

Padrón

Padrón aparece com a sua igreja, o pedrón (a pedra onde, diz a lenda, amarraram o barco que trouxe o corpo do Apóstolo) e a memória de Rosalía de Castro. Jantámos pimentos de Padrón, claro. Uns picam, outros não. À minha mãe calhou o que picava e riu-se com lágrimas nos olhos, e eu não sei se era do pimento.

Distância
18,6 km
Disposição
Bem
Dormi em:
Pensão em Padrón

Dia 5 · 18 abril

Padrón – Santiago: a chegada

Na Praza do Obradoiro a minha mãe abraçou-me e disse 'obrigada por me trazeres'. Foi ela que me trouxe a mim.

Última etapa, a mais longa das que fizemos, e a que menos custou. Saímos de Padrón às sete, passámos A Escravitude e a sua igreja barroca, Teo, os bosques de carvalho de Faramello e depois O Milladoiro, onde Santiago começa a aparecer em forma de prédios e rotundas. E de repente, num alto, as torres da catedral ao fundo. A minha mãe parou e benzeu-se. Nunca a tinha visto fazê-lo.

Os últimos quilómetros são de cidade, sem graça, e não importa. Entrámos pela Porta Faxeira, descemos a rúa do Franco cheia de gente e de cheiro a polvo, e passámos debaixo do arco do Pazo de Xelmírez com um gaiteiro a tocar. A minha mãe já chorava antes de ver a praça.

A Praza do Obradoiro

Sentámo-nos no chão, como toda a gente, de costas para o Hostal dos Reis Católicos e de frente para a catedral. A minha mãe abraçou-me e disse: «Obrigada por me trazeres.» Foi ela que me trouxe a mim. Fomos à missa do peregrino, vimos o botafumeiro voar, e à noite, no hotel, ela adormeceu a ver as fotos no telemóvel, uma a uma, desde a ponte de Tui.

Se estão a pensar fazer o Caminho com os vossos pais, façam-no agora. Cinco dias bastam para mudar a forma como se olham. Nós já marcámos o próximo: Porto a Tui, na primavera.

Distância
24,3 km
Disposição
Radiante
Dormi em:
Hotel em Santiago, duas noites